O Berro D’Água e as “estórias juazeirenses”




Já tinha ouvido falar em Maria Franca Pires, aliás, faço pesquisa no acervo que tem o seu nome. Mas sempre senti que o que eu sabia não era suficiente, queria ler algo mais autêntico sobre essa figura juazeirense, algo vívido, algo surpreendente, que me fizesse sentir um pouco da essência e  singularidade dessa mulher. 
No isolamento físico, ´em meio a ansiedade para voltar a uma normalidade que já não é mais, pesquiso em um jornal do ano de 1987 e encontro uma entrevista na qual entrevejo Maria Franca Pires. Exulto de prazer, aquele prazer que só quem sente é quem sabe a graça do encontro com uma figura histórica num passado morto que ganha sentido novamente através das palavras.

A entrevista foi veiculada no periódico O Berro d’Água que, com linguagem leve e bem-humorada, registrou as mais diversas facetas de Juazeiro a partir do uso da fotografia, da charge e entrevista. O periódico surgiu “para revitalizar a cultura dessas margens”, para dar lugar “à contradição”, para dar “voz e vez a tudo e a todos”. Entre essas vozes, a de Maria Franca Pires, considerada “figura de peso na cultura juazeirense”.

Mulher de franqueza, de “ideias próprias e coragem desconcertante”, por vezes polêmica, pois queria liberdade de ir e vir numa época cheia de restrições. Ela conta que “queira passear na rua D’Apolo e meu pai dizia que a rua D’Apolo não era lugar de moça decente. Imagine! Eu achava que toda decência estava na rua D’Apolo!” E continua narrando com bom humor sobre os rapazes  que faziam fila para passear com as moças, sobre os passeios a bordo e as andanças no cine São Francisco, já que “filme era uma coisa importante na vida da gente”.

Com o passar do tempo, explica que formou-se como professora, porém, a luta foi grande para exercer o seu ofício. Uma das fundadoras da escola do SENAI em Salvador, acabou sofrendo perseguição política feita pelo Partido Social Democrático (PSD), sendo transferida para diversos municípios da região até ter sua cadeira como professora firmada em Juazeiro no ano de 1951. Logo ela, apaixonada pela história de Juazeiro:


“Então fui, desde menina, juntando essas coisas. Jamais enfeitaria as minhas paredes com quadros de flores, paisagens, essas coisas. Acho bonito, mas bem longe da minha casa. Dou mais valor a quadros assim: fotografias de Juazeiro, que sirvam de documentos. Isso pra mim é que tem sentido. Peças de artesanato, aquela indumentária toda de vaqueiro, a cabaça, etc.”


Acabei encontrando na entrevista uma mulher obstinada, uma professora firme, uma colecionadora de fotografias e objetos desde a infância, uma escutadeira que se preocupou em escutar não a história registrada em livros, mas aquela que “vive na cabeça do povo”. Costumava dizer que “toda história que aconteceu é importantíssima. Não existe uma história mais importante que outra”. Agora, sua própria história não é mais apenas um pensamento difuso escorrendo pelo labirinto da minha mente. Ela ganhou forma, substância e admiração. 
A transcrição da Entrevista pode ser conferida no link
Texto: Jônatas Pereira, bolsista do projeto de pesquisa História e Memória do Sertão do São Francisco.


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