Nos anos 1980, Metalúrgica canta o amor
O Acervo Maria Franca Pires relembra hoje a edição de O Berro D’Água, publicada em janeiro de 1987. A partir da reportagem “Não à
caretice, sim à vida”, conhecemos um pouco mais sobre a primeira banda de rock da cidade, criada
em 84 por Luisão Pereira – que à época tinha onze anos de idade – e Joãozinho,
quando resolveram comprar guitarra e bateria para estudarem música e tocarem
rock. Inicialmente batizada como “Conjuntivite”, a banda sofreu várias
formações até chegar a formação atual descrita no periódico com: Luisão
(guitarra solo), Eliud (vocal), Alfeu (guitarra base) e Máximo (baixo).
O criador e guitarrista solo da banda,
Luisão Pereira, é irmão de Antônio Carlos Tatau, sobrinho do sambista baiano
Ederaldo Gentil, e morava na mesma rua de João Gilberto. Hoje, após passar pela
banda punk Metalúrgica e tantas outras, Luisão é músico, compositor e produtor
musical premiado e conhecido. Tendo produzido discos e shows de diversos
artistas como Los Hermanos, Elza Soares, Titãs, Nação Zumbi, Paralamas do
Sucesso entre outros.
Relembre a reportagem:
NÃO À CARETICE, SIM À VIDA
Elvis mexeu os quadris e nunca mais o mundo
foi o mesmo. Em meio aos horizontes frios da década de 50, uma alteração no
ritmo do negro rithm’y blues americano forneceu a adrenalina necessária para
milhares de jovens empreenderem suas viagens em busca da paz e do amor. Era o
tal do rock’n roll. Da família à guerra, das preocupações existencialistas à
fome, da revolução ao status quo, nada deixou de passar pelos seus acordes
libertários e inconformados. Nem tudo foi como ele quis, mas teria sido pior
sem sua companhia.
Chegou aos 80 anos com muita vitalidade,
embora um tanto desfigurado. Também pudera, seu público topou pelo caminho com
uma sutil estratégia de preservar o passado, acompanhando o presente para um
futuro feliz. Assim, se existe um tal de Dr. Silvana dando um serão extra ou
qualquer ursinho blau-blau é possível ouvir a Legião Urbana cantar “desde
pequenos nós comemos lixo/ comercial e industrial/ mas agora chegou nossa vez/
vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. É bom avisar aos incautos que
os manuais de marketing ensinam muitos “roqueiros” a fazerem sucesso, mesmo que
não saibam tocar, cantar: basta você não ser você mesmo. Mas, rock é rock
mesmo, já sentenciava Led Zepellin.
NÃO À CARETICE. PRA VIDA UM SIM
Quem diz é banda Metalúrgica, daqui de
Juazeiro mesmo. Exatamente nesse momento em que o átomo torna-se o garoto
propaganda mais notável dos medievais senhores modernos, em que o rock recicla
suas harmonias, se enreda pelo satanismo dos “heavy metal” ou pelo ceticismo
mais demente dos “dark”, os metalúrgicos afirmam que esse mundo tem jeito, as
pessoas ainda se apaixonam. O amor é possível, sinceramente.
Criada em 84 – primeiramente com o nome de
Conjuntivite, quando essa doença infestava os olhos de um sem número de pessoas
– por Luizão e Joãozinho que resolveram comprar guitarra e bateria para
estudarem música e tocarem rock, onde antes só havia um mesmíssimo violão
tocando as mesmíssimas músicas. Nenhum preconceito: Luizão adora João Gilberto.
Mas rock é fundamental.
A Metalúrgica passou por várias formações.
Nenhuma briga, apenas as pessoas tinham de procurar seus caminhos fora de
Juazeiro. Os atuais compositores (Luisão, guitarra solo; Eliud, vocal; Alfeu,
guitarra base; Máximo, baixo) estão tocando juntos a mais de um ano e levando
muito a sério o trabalho da banda. Às vezes sacrificando a hora do estudo – “e
a professora achando que a gente é burro” – ou mesmo a atenção para a namorada.
No entanto, invariavelmente, às 16 horas, num quarto de fundo, de frente pro
rio, na Carmela Dutra, estão lá tecendo seu som com o pôr do sol até a lua se
insinuar pelo céu da cidade.
JÁ TEMOS PÚBLICO
A banda já tocou pra plateias relativamente
grandes, como no Esquina Bar, em novembro do ano passado. Antes de começar o
show, já não havia espaço para mais ninguém e o pessoal teve que se acomodar
até em cima de árvores. Os músicos foram imprensados contra a parede e mandaram
ver. Eliud diz animado que ninguém ficou parado. Valeu.
Nem sempre foi assim. No início enfrentaram
a desinformação e o descrédito das pessoas. Até mesmo ironias do tipo “tem
gente que aprende duas ou trés rotas e pensa que faz música”. Resposta em cima
da bucha: depois a gente aprende mais. Não deu outra. O público aprendeu a
sacar que por trás da “barulheira” das guitarras, baixo e bateria, havia algo
pulsante e uma preocupação em falar das mazelas do mundo. É bom pra cabeça, é
bom pra corpo.
O próprio universo musical da banda se
ampliou. No ano passado, por exemplo, “estava radical, só tocava rock pesado”
confessa Luisão. Hoje, o som tornou-se mais diverso e deram maior atenção aos
arranjos. Segundo Eliud, eles tocam rock sem distinção de gênero. As
influências são várias, mas nenhuma preocupação com a imitação ou os enlatados
da vida. Portanto, não se surpreenda se em meio à batida rock’n roll de “Ilha
do Fogo”, você tiver que arrastar os pés para acompanhar um xaxado de Luiz
Gonzaga. O sucesso é criar um estilo próprio e não fumar Hollywood.
Led Zeppelin, Deep Purple Whitsnake, Iron
Maiden, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Black Sabath, Câmisa de Vênus, Legião
Urbana, Paralamas… Jazz… Schubert (é o que você está lendo mesmo), já passaram
pelos ouvidos dos metalúrgicos, RPM? – Pra quem quer ver um boneco controlado
por computador, que lhe enxuga até o pingo de suor do rosto, é bom. O
trombeteado disco ao vivo, na verdade, não o foi, garante Luisão. Diversos
arranjos foram feitos no estúdio.
TODO MUNDO DÁ SUA FORÇA
A Metalúrgica já tem um repertório de 23
músicas, algumas bem conhecidas do público como “Ilha do Fogo” - a felicidade
mora mesmo é no meio do rio – e “Paradoxon” – “não tenho culpa se ando na rua
sem nada de cima sem nada a temer”. A maioria delas são de autoria do grupo
(Luisão, Eliud e Máximo). Algumas são de compositores de fora do grupo, como é o
caso de “Paulinho D. A.” – São Paulo não fique assim tão new/ tão Nova York –
de Mauriçola e Galvão e “Paradoxon”, de Rato Mota e Serjete, de Salvador. As
ideias, no entanto, têm curso livre e todo mundo participa.
Transcrição da matéria publicada no jornal
“O BERRO D’ÁGUA”, na edição número 1 do periódico juazeirense, referente a
janeiro de 1987. A documentação pode ser encontrada no acervo Maria Franca
Pires.
Trabalho de Pesquisa: Jônatas Pereira, estudante de Jornalismo e bolsista do projeto História e Memória do Sertão do São Francisco. coordenado pela professora Edonilce Barros.


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